A saída de Luciana Gimenez do Superpop (Rede TV!) depois de 25 anos no ar, marca mais do que uma troca de comando: representa o encerramento de uma fase que ajudou a moldar o jeito de fazer TV nas últimas décadas, utilizando temas atuais considerados como tabus como ingrediente de debates acalorados de assuntos que vivem nas sombras e no imaginário das pessoas. Lembro quando Luciana foi convidada a assumir o comando do programa, ela era modelo, filha da atriz Vera Gimenez e morava em Nova York. Se tornou celebridade mundial por ter engravidado do cantor Mick Jagger. Enfrentou dificuldades com a língua, virou meme, foi criticada pela imprensa, mas conseguiu através de muito carisma, driblar a situação e se transformar em celebridade.
Antes de Luciana assumir o programa, quem esteve à frente do Superpop foi Adriane Galisteu. Naquele momento inicial, o programa tinha um tom mais leve, realmente pop, com DJ, convidados interessantes e espaço real para a música, algo que fazia diferença na grade. Há cerca de 25 anos, com a chegada de Luciana, o Superpop mudou de identidade. As pautas passaram a ser mais polêmicas, diretas e provocativas, abrindo espaço para personagens que ganharam projeção nacional ali, como Andressa Urach, Geisy Arruda, mulheres frutas, Toninho do Diabo, Enri Cristo e até mesmo o então depoutado Jair Bolsonaro que era personagem frequente, além de personalidades do underground que tiveram voz, além de seus 15 minutos de fama, em momentos cercados de controvérsias e forte repercussão pública. Era comum reunir no palco pais de santo, pastores evangélicos e padres para discutirem temas atuais. Sem falar na legião de sensitivos que o programa lançou.
É impossível negar que esse formato dividiu opiniões, mas também é justo reconhecer o lado positivo. Muitas pautas ajudaram a desmistificar temas que antes eram tratados como tabu na sociedade brasileira. O Superpop, goste-se ou não, virou espaço de debate aberto, muitas vezes desconfortável, mas necessário para refletir comportamentos, preconceitos e hipocrisias. O Superpop deu voz a muitos personagens que viviam nas sombras, mas criou alguns monstros, que usaram da popularidade do programa para se projetarem.
Entre tantos episódios marcantes, um marcou história na TV brasileira, o jornalista Felipeh Campos expôs, sem querer, a vida pessoal do cantor Agnaldo Timóteo, em um momento que gerou enorme repercussão, porque além de arrancar risos, tirou uma pessoa do armário, que negou sua sexualidade até o final de sua vida.
A RedeTV! já confirmou que o Superpop continuará no ar e busca uma nova apresentadora. Fica agora a curiosidade, quase inevitável, sobre qual será o próximo formato. Mais leve? Mais polêmico? Ou um meio-termo que dialogue com os novos tempos? Seja qual for o caminho, o desafio será grande: substituir não apenas uma apresentadora, mas um estilo que marcou época.