Justiça no caso “Orelha”

Escrevo este texto com indignação e um sentimento de impotência que tem tomado conta de muita gente nos últimos dias. A morte brutal do cachorro Orelha, espancado na Praia Brava, em Florianópolis, deixou de ser apenas um caso de maus-tratos para se transformar em um símbolo de algo ainda maior: a sensação de que a violência, quando cercada de privilégios, pode acabar sem consequências. Orelha não morreu apenas pelas agressões. Morreu também diante de um país que se pergunta, mais uma vez, se a Justiça vale para todos.

O que vi e acompanhei neste domingo, na Avenida Paulista, foi a materialização dessa revolta. Manifestantes se reuniram em frente ao Masp pedindo prisão e responsabilização dos envolvidos. Gente comum, protetores de animais, ativistas e parlamentares da causa animal, todos unidos por uma cobrança simples e legítima: justiça. O caso envolve quatro adolescentes suspeitos das agressões e já levou ao indiciamento de três adultos, dois pais e um tio, por coação de testemunha. Ainda assim, o sentimento que ecoava entre os cartazes e palavras de ordem era de desconfiança.

E essa desconfiança não surgiu do nada. Desde que comecei a falar publicamente sobre o caso, recebi mensagens de moradores de Florianópolis que afirmam conhecer os bastidores da história. Segundo eles, um dos envolvidos pertence a uma família influente e tradicional de Santa Catarina. O tom das mensagens era quase sempre o mesmo: a certeza de que nada vai acontecer. Faço questão de registrar que se trata de relatos de moradores, percepções de quem vive na cidade e acompanha de perto o caso, mas o simples fato de essa ideia ser tão recorrente já revela um problema grave.

Orelha virou um nome repetido em atos, redes sociais e manchetes, mas não deveria virar apenas estatística ou símbolo passageiro. Quando a população ocupa a Avenida Paulista para pedir justiça por um cachorro, o recado é claro: não se trata só de um crime contra um animal, mas de um grito contra a impunidade, contra o abuso e contra a sensação de que algumas vidas, humanas ou não, valem menos do que sobrenomes e relações de poder. Justiça para Orelha é, no fundo, um pedido para que a lei funcione de verdade. Para todos.