DE ANITTA A MARQUEZINE: POR QUE ELAS SÃO 60% DOS AFASTAMENTOS POR SAÚDE MENTAL?
Especialista em liderança feminina Danieli Wegermann analisa recorde de licenças por transtornos mentais, explica colapso por sobrecarga do cuidado e aponta 3 investimentos práticos – fenômeno que já atingiu famosas como Maiara, Fernanda Souza e Tatá Estaniecki
Você acorda mais cedo para organizar a dinâmica da casa, planeja mentalmente as refeições, checa os prazos do trabalho, cuida do bem-estar dos filhos ou apoia os amigos. Ao final do dia, a lista foi cumprida, mas o saldo da sua mente está no vermelho.
O mercado chama de “estresse do dia a dia”. A matemática mostra uma epidemia silenciosa: o colapso do fluxo de caixa emocional das mulheres. E é uma conta que não escolhe classe social.
De anônimas a famosas como Anitta, que já expôs publicamente suas crises de ansiedade e exaustão por conta da jornada exaustiva, Bruna Marquezine, que fala abertamente sobre terapia e a cobrança por ser perfeita, e Maiara, da dupla com Maraisa, que já se afastou dos palcos por esgotamento, o relato se repete: a mulher que cuida de tudo, mas se deixa por último no extrato.
“Discutir o esgotamento feminino apenas como ‘preciso descansar mais’ é ignorar o básico. Para todo débito de energia que despejamos no mundo, precisamos de um crédito de reposição. Se a conta não fecha, entramos no cheque especial. Mulheres não adoecem por fragilidade; adoecem porque operam em um ecossistema moldado para gastar todos os recursos com o cuidado da vida alheia, deixando o extrato pessoal zerado”, afirma Danieli Wegermann, especialista em liderança e comportamento feminino.
A métrica do adoecimento – os dados oficiais mostram que a falência mental feminina virou indicador econômico:
- A maioria nas licenças: O Brasil registrou recorde de mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2024, segundo o Ministério da Previdência Social. Desse total, mulheres respondem por mais de 60%.
- A epidemia de ansiedade: O relatório Esgotadas, da ONG Think Olga, revela que 45% das mulheres brasileiras já possuem diagnóstico de ansiedade ou depressão. A ansiedade faz parte da rotina diária de 6 em cada 10.
- O recorte do esgotamento: Mulheres são a grande maioria dos casos de burnout registrados no SUS, impulsionadas pela soma do trabalho remunerado ao trabalho de cuidado não remunerado.
O mesmo esgotamento que levou artistas como Fernanda Souza a relatar síndrome do pânico, Tatá Estaniecki a expor o burnout da maternidade e Ivete Sangalo a falar sobre a culpa materna por tentar dar conta de tudo.
“Por que esse mecanismo é tão resiliente? Porque a cultura confunde endividamento mental com amor. Desde cedo, a mulher é socializada para ser o porto seguro. Exige-se a jornada 360º perfeita: profissional impecável, parceira presente, mãe exemplar e gestora de um lar sem falhas”, explica Danieli.
Esse fardo invisível, a carga mental, é o trabalho constante de planejar, lembrar e gerenciar tudo para que a engrenagem não pare. O resultado é um estado de hipervigilância crônica que destrói o sono, anula o foco e paralisa a ascensão na carreira.
Três investimentos para ajudar a equilibrar o seu saldo mental e emomional – por Danieli Wegermann
Para um problema estrutural, não adianta vender resposta simples como “uma tarde no spa”. Se você não tem tempo para rituais complexos, o resgate exige ferramentas realistas e de fácil implementação:
- Realizando depósitos – intervenção “Escrevendo para Curar”: os estudos clássicos do Dr. James Pennebaker provaram que esconder um acontecimento difícil é mais prejudicial do que a própria experiência. O aporte: escreva livremente sobre suas experiências mais intensas por 15 a 20 minutos por dia, durante 3 a 4 dias.
- O Fundo de Estabilização Emergencial – intervenção S.T.O.P.: Sob estresse severo, nossa mente tem “efeito de visão de túnel”. Para estancar o dreno no meio de uma crise, aplique: STOP (Pare 30 segundos); TAKE A BREATH (Respire fundo); OBSERVE (Observe corpo e pensamentos sem se julgar); PROCEED (Prossiga com a decisão mais inteligente).
- A Valorização de Ativos – Microintervenção de Recursos: treinar a mente para rastrear e valorizar recursos que já temos (tempo livre real, nossas competências, conquistas, pequenos rompantes de alegria, relacionamentos positivos) reduz o saldo do esgotamento. Em vez de focar de forma obsessiva apenas no rombo do seu extrato e no que está faltando, faça um balanço patrimonial dos seus pequenos pilares de sustentação atuais. Tratar o que você já possui como um ativo valioso blinda a sua mente contra a sensação crônica de escassez e exaustão.
A especialista alerta: quando você aceitar financiar o mundo com a falência da sua própria mente, o saldo final sempre será o vermelho. Mas o diagnóstico não precisa ser definitivo. Proteger a sua saúde mental é o passo mais urgente para reequilibrar o fluxo da sua história. Entenda que você não nasceu apenas para quitar os débitos da sobrevivência. É hora de fazer aportes reais em si mesma, guardando energia para o que te nutre e permitindo-se enriquecer a vida com momentos, risos e experiências que dão verdadeiro sentido aos dias.
*Danieli Wegermann é pesquisadora em liderança, autora, palestrante, professora de MBA e fundadora da Learnability School. Há 15 anos atua no desenvolvimento de liderança e soma mais de 40 mil horas no desenvolvimento líderes.