A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, que entrará em vigor em maio de 2026, deve alterar o padrão de gestão trabalhista no país ao exigir que empresas passem a identificar, mensurar e mitigar fatores de risco psicossocial dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A mudança amplia o escopo da segurança do trabalho para incluir elementos como estresse ocupacional, falhas na organização do trabalho, pressão por metas e assédio.
Entre as grandes corporações brasileiras, a Paschoalotto, que emprega cerca de 14 mil funcionários , decidiu se antecipar ao processo regulatório e já estruturou um modelo integrado que conecta jurídico, recursos humanos, compliance e saúde ocupacional, movimento incomum no setor e que a posiciona entre as empresas que estão ditando ritmo à adaptação da NR-1.
Mudança regulatória altera fronteira entre gestão de pessoas e governança
A revisão da norma representa, para especialistas, o início da consolidação de um novo paradigma empresarial. A percepção de que riscos ocupacionais estavam restritos ao campo físico, químico ou biológico agrega valor à Norma incluindo a consideração de que a organização do trabalho pode ser fonte direta de adoecimento.
A interpretação jurídica desse cenário tem sido liderada internamente pela diretora Jurídico Institucional da Paschoalotto, Roberta Nascimento, profissional com mais de 24 anos de experiência em compliance, gestão de riscos e direito empresarial.
Para ela, a NR-1 simboliza uma “transição da subjetividade para a mensurabilidade” no tratamento da saúde emocional no trabalho. “A nova NR-1 desloca a saúde mental do campo da percepção individual para o campo técnico da gestão de riscos. Isso exige método, governança e evidência. O que antes era tratado como sensibilidade agora precisa ser documentado, monitorado e auditado”, afirma.
A executiva, que também atua como DPO e lidera as frentes de compliance e privacidade, destaca que o desafio das empresas será integrar as exigências regulatórias com a Lei Geral de Proteção de Dados, que impõe camadas adicionais de controle no tratamento de dados sensíveis.
Diagnóstico estruturado cria parâmetro objetivo para risco psicossocial
A Paschoalotto iniciou seu processo de conformidade aplicando inventários certificados que avaliaram carga de trabalho, autonomia, ambiente organizacional, percepção de suporte e qualidade da liderança.
Os resultados foram convertidos em matriz de risco, base para o plano de ação previsto na norma. O processo envolveu cruzamento de informações com indicadores já acompanhados pela área de governança, como:
• rotatividade por área;
• padrão de afastamentos;
• queda de produtividade;
• histórico de denúncias éticas;
• dados da área de saúde ocupacional.
A diretora de Recursos Humanos, Luiza Caixe Metzner, afirma que a empresa observou um aumento relevante na busca por suporte emocional nos últimos anos, tendência alinhada ao movimento nacional. “O país registrou crescimento expressivo nos afastamentos ligados a questões emocionais. A NR-1 reforça o entendimento de que não basta tratar o sintoma, é preciso olhar para os gatilhos organizacionais. Esse é o eixo central da mudança.”, diz.
Compliance e saúde ocupacional convergem para modelo de vigilância contínua
A estratégia da empresa passou a integrar indicadores típicos de compliance, como reporte de condutas inadequadas e análises de ouvidoria, a indicadores de saúde ocupacional, criando um sistema único de monitoramento.
Roberta explica que o ponto crítico não é apenas identificar o risco, mas demonstrar capacidade de mitigação: “Sob a perspectiva jurídica, o elemento determinante passa a ser a capacidade de comprovar que a empresa tomou medidas proporcionais aos riscos identificados. A ausência de evidência será, na prática, interpretada como ausência de ação.”
Para ela, as empresas que não estruturarem um sistema robusto de governança terão impactos diretos em passivos trabalhistas, negociação com seguradoras, auditorias e reputação corporativa.
Lideranças tornam-se eixo central da adequação
A empresa investe na formação de gestores em temas como segurança psicológica e gestão humanizada. Para Roberta, esse é um dos pontos mais sensíveis da NR-1. “Ainda há um desafio cultural no país. Parte das lideranças foi formada em um modelo de comando e controle. Agora, a legislação exige alfabetização emocional: identificar sinais, acolher e encaminhar. Não se trata de transformar líderes em terapeutas, mas de prepará-los para lidar com pessoas.”, afirma.
Estratégia de escuta ativa reformulou benefícios e políticas internas
Com iniciativas como o programa “SEM Portas”, a Paschoalotto utilizou métodos de escuta estruturada para orientar a revisão de benefícios e políticas internas, ampliando acesso a:
• sessões gratuitas de terapia;
• consultoria nutricional;
• adesão facilitada a programas de atividade física;
• grupos de apoio emocional.
O processo, segundo a empresa, tem reduzido indicadores de presenteísmo e aumentado a adesão aos programas de prevenção.
Digitalização e governança completam o ciclo de conformidade
A companhia também está adaptando seus sistemas internos para o modelo de documentação eletrônica exigido pela norma, garantindo rastreabilidade de treinamentos, inventários e planos de ação.
Para Roberta, a antecipação não é apenas resposta regulatória, é estratégia de competitividade. “A NR-1 acelera a migração para modelos de gestão mais maduros. Empresas que tratam pessoas como ativos estratégicos, e não como custo operacional, terão vantagem em produtividade, retenção e sustentabilidade de longo prazo.”
Sobre a Paschoalotto
Fundada em 1998, em Bauru (SP), a Paschoalotto é uma das maiores empresas brasileiras em soluções de relacionamento com o cliente, recuperação de crédito e serviços de BPO, com cerca de 14 mil funcionários. A companhia tem ampliado investimentos em inovação, diversidade, governança e desenvolvimento humano, consolidando-se entre as maiores empregadoras do interior paulista.