Professora de Manaus renasce após transplante na Fundação Pró-Rim

Aos 42 anos, a professora Eliene Baunilha de Alfaia viu a vida mudar da rotina “normal” de sala de aula em Manaus para a luta contra a insuficiência renal, agravada pela Covid-19, até encontrar no transplante realizado pela equipe da Fundação Pró-Rim, em Santa Catarina, uma nova chance de viver.
Uma vida considerada normal
A vida de Eliene foi dividida em dois tempos: o antes e o depois de ouvir, numa enfermaria de hospital, que seus rins tinham parado. Professora do ensino fundamental e moradora de Manaus, ela levava uma rotina que poderia ser a de qualquer trabalhadora brasileira: acordar cedo, ir para a escola, estudar, voltar para casa, cuidar dos serviços domésticos, planejar aulas. Sentia-se saudável e não havia histórico de doença renal na família. “A vida era normal”, resume.
Covid-19 e o colapso silencioso dos rins
Tudo começou a mudar durante a pandemia de Covid-19. Em meio ao caos em Manaus, com hospitais e UPAs lotados, o conselho era um só: ficar em casa. Eliene, o marido e muitas pessoas próximas adoeceram ao mesmo tempo. Veio a febre alta, o vômito, o mal-estar crescente. Com medo de buscar ajuda em unidades superlotadas, ela tentou se tratar em casa, enquanto os dias passavam e os sintomas pioravam, sem saber que os rins estavam entrando em colapso.
Diante da piora, uma amiga insistiu para que ela fosse a uma unidade de saúde que fizesse exames. Ao chegar lá, a pressão estava em 22 por 10. “Eu não sei como eu não tive um infarto”, recorda. A médica tentou controlar a pressão, sem sucesso, e decidiu pela internação.
O diagnóstico e o choque da hemodiálise
Transferida para outro hospital, Eliene passou por uma sequência de exames. A creatinina muito alterada indicava comprometimento grave da função renal. Sem ter identificado a fase aguda da lesão, perdeu-se a chance de reversão. Após semanas internada, entre sintomas de Covid e cansaço extremo, veio o diagnóstico que mudaria sua trajetória: insuficiência renal aguda, com indicação de hemodiálise.
A palavra “hemodiálise” chegou sem muitas explicações. Informaram que seria passado um cateter e iniciadas quatro sessões, com a esperança de que os rins voltassem a funcionar. De mãos dadas com uma amiga, Eliene sentia mais medo do que qualquer outra coisa. O cateter foi inserido, as sessões começaram e, com elas, uma chance ainda frágil de recuperação da função renal.
Uma nova rotina na clínica
A melhora não veio. Com os exames mostrando que os rins não reagiam, ela foi encaminhada a uma clínica de hemodiálise. Foi ali que entendeu que o tratamento poderia ser definitivo. Na primeira segunda-feira em que chegou, após uma breve alta, se deparou com cadeiras de rodas, máquinas, pacientes ligados aos equipamentos e caiu em choro. “Que mundo é esse? Eu não conhecia ninguém com insuficiência renal”, conta.
Três vezes por semana, horas na máquina e um cateter na virilha que limitava movimentos passaram a fazer parte da rotina. Em paralelo, escutava frases como “quem desenvolve doença renal vive apenas 10 anos”. “Aquilo me dilacerava”, lembra. Um louvor cantado na clínica trouxe algum alívio. A frase “vai passar, eu sei que tudo vai passar” virou um mantra, mas os rins não voltaram a funcionar.
O impacto físico e emocional foi grande. Em uma cidade quente como Manaus, ouvir que só poderia beber 500 ml de água por dia foi um choque. Até a banana, sua fruta preferida, entrou na lista de alimentos limitados por causa do potássio. Apesar do sofrimento, Eliene teve apoio constante de amigas e familiares. Ainda assim, a ideia de que teria “apenas 10 anos de vida” após o início da diálise rondava cada conversa sobre o futuro.
A descoberta da Fundação Pró-Rim
Em busca de uma saída, o casal mergulhou em pesquisas na internet sobre tratamentos e centros de referência. Em uma dessas buscas, encontrou uma live da Fundação Pró-Rim, explicando sobre o tratamento renal e o trabalho da instituição. A transmissão reacendeu a esperança. Eles escreveram um e-mail, relataram a situação e perguntaram sobre a possibilidade de consulta.
Eliene e o marido viajaram, conheceram a equipe da Fundação Pró-Rim e receberam orientação detalhada sobre o tratamento e as possibilidades de transplante. “Ali nasceu uma nova esperança, era uma nova porta”, define. Ela decidiu entrar na fila do transplante.
Entre o medo da cirurgia e o desejo de viver
A decisão, porém, não afastou o medo. Agora, o temor era a cirurgia. Inscrita na lista, Eliene passou a esperar por um rim. Cerca de três meses depois de chegar a Santa Catarina, no aniversário do marido, enquanto preparavam um jantar simples com amigos, o telefone tocou: havia um rim disponível.
A oportunidade que tinham buscado ao atravessar o país provocou pânico. Com receio de morrer na mesa de cirurgia, de sentir dor insuportável ou de ter rejeição do órgão, ela chorou muito e recusou o transplante. “Era um conflito entre a vontade de viver mais e o medo do desconhecido”, admite hoje.
A madrugada em que a vida recomeçou
A recusa não encerrou o desejo de mudança. Algum tempo depois, veio uma segunda ligação. Dessa vez, a equipe explicou novamente todo o procedimento, acolheu os medos e reforçou o apoio. Na madrugada de 22 de junho de 2024, às 3h, o telefone tocou de novo. A médica avisou que havia um rim disponível e Eliene decidiu aceitar.
No Hospital São José, em Joinville, foi recebida por uma equipe já a postos. Na porta do elevador, ouviu de um funcionário que muitas pessoas acham que vão morrer ao fazer o transplante, mas que não deveriam pensar assim, porque o procedimento seria o melhor para a vida delas. “Aquelas palavras me deram coragem”, lembra.
Ela foi preparada para a cirurgia ao lado de outra paciente. As duas receberam rins do mesmo doador falecido, o direito para Eliene, o esquerdo para a outra mulher.
Pós-operatório tranquilo e uma nova chance
O pós-operatório foi mais tranquilo do que imaginava. As dores foram controladas, e o acompanhamento da equipe foi constante. “Eu me senti muito amada no São José”, conta. Médicos e enfermeiros estavam diariamente ao seu lado, ajustando medicações e monitorando a recuperação. “Cheguei com 58 kg, saí com 64, eu comia e dormia, dormia e comia”, brinca.
De volta para casa, já transplantada, Eliene passou a perceber, nos detalhes, que “tinha dado certo”. A liberdade maior para beber água, o corpo respondendo melhor e o fim da dependência das longas sessões de hemodiálise mostravam que a aposta no transplante valeu a pena. A vida, antes comprimida em estatísticas e prazos, voltava a se abrir em possibilidades.
Ao olhar para trás, ela enxerga uma trajetória marcada por medo e dor, mas também por fé, apoio e encontros fundamentais: a amiga que insistiu para que buscasse atendimento, a médica que identificou a gravidade, as equipes que a acompanharam na hemodiálise e no transplante e a Fundação Pró-Rim, que lhe ofereceu um caminho.
Professora por vocação, Eliene diz ter aprendido, na própria pele, que a vida pode mudar de um dia para o outro e que, mesmo nas fases mais duras, uma nova porta pode se abrir. Para ela, essa porta se escancarou às 3h da manhã, na madrugada em que o telefone tocou para avisar que havia um novo rim. E, com ele, uma nova chance de viver.
Transplante renal no Brasil e o papel da Fundação Pró-Rim
O transplante de rim é hoje o principal tratamento para muitos pacientes com doença renal crônica avançada, permitindo mais autonomia e qualidade de vida em comparação com a diálise de longo prazo. Em 2024, o Brasil realizou cerca de 6,3 mil transplantes renais, em um total de mais de 26 mil transplantes de órgãos e tecidos, e o país figura entre os líderes mundiais em número absoluto de procedimentos. Ainda assim, dezenas de milhares de pessoas aguardam na fila, sendo o rim o órgão mais demandado.
Em Joinville, a Fundação Pró-Rim se tornou referência nacional no tratamento de doenças renais e no transplante de rim. A instituição, que já ultrapassou a marca de 2.100 transplantes renais e realiza, em média, cerca de 100 cirurgias desse tipo por ano, sendo líder em transplantes renais em Santa Catarina.
O presidente da Fundação Pró-Rim, Maycon Truppel Machado, costuma resumir a missão da entidade dizendo que o transplante não é apenas uma cirurgia, mas uma forma de devolver projetos de vida, trabalho e convivência familiar ao paciente renal, reforçando a importância da doação de órgãos para que histórias como a de Eliene possam continuar acontecendo.
“Cada transplante representa uma vida salva e um futuro reescrito. Nosso compromisso é garantir que o paciente renal tenha acesso a um tratamento digno, humanizado e de qualidade, e que a doação de órgãos se transforme em novas histórias de esperança para famílias em todo o Brasil”, ressalta Maycon Truppel.