Especialista explica os critérios de correção, os erros que podem zerar a nota e o que priorizar até a prova de 8 de novembro
Faltam pouco mais de cinco semanas para a redação do ENEM, marcada para o primeiro dia de provas, 8 de novembro. Nesse intervalo, o candidato não vai aprender a escrever do zero, mas pode escrever de forma muito mais segura.
Para isso, é preciso entender como o texto será corrigido, quais deslizes derrubam a nota e onde vale concentrar o tempo que resta. Com o tema ainda desconhecido e a Cartilha do Participante 2026 já divulgada pelo Inep, a reta final é o momento de trocar a ansiedade por método.
O tema é inédito, mas a lógica de escolha é conhecida
Ninguém de fora sabe qual será a proposta, e tentar adivinhar é perda de tempo. O que se sabe é o padrão: o tema costuma partir de um eixo recorrente, como saúde, educação, tecnologia, meio ambiente, direitos humanos ou inclusão social, com um recorte específico que nunca se repete. Ele também precisa ser socialmente relevante, acessível a estudantes de qualquer região do país e configurar um problema que admita intervenção concreta.
“Quem estuda por eixos e por problemas sociais, e não por temas prontos, chega preparado para qualquer recorte. Na hora da prova, o que separa uma boa nota de uma nota baixa é saber ler a proposta com atenção e construir uma tese com argumentos que a sustentem”, afirma Cris Oliveira, professora e fundadora da Cris Oliveira – Tudo de Texto.
Como a redação é corrigida
Segundo a Cartilha do Participante, cada redação é avaliada por dois corretores independentes. Cada um atribui de 0 a 200 pontos em cinco competências, e a nota final é a média das duas correções, com máximo de 1.000 pontos. As competências avaliam, respectivamente:
●Competência 1. O domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa.
●Competência 2. A compreensão da proposta e a aplicação de conhecimentos de diferentes áreas, dentro da estrutura dissertativo-argumentativa.
●Competência 3. A seleção, a organização e a interpretação de informações e argumentos em defesa de um ponto de vista.
●Competência 4. O uso dos mecanismos linguísticos que garantem coesão e coerência à argumentação.
●Competência 5. A elaboração de uma proposta de intervenção para o problema, com respeito aos direitos humanos.
“Escrever proficientemente exige muito mais do que conhecer a gramática. O candidato precisa ler a proposta com precisão, defender uma tese, organizar repertório e ainda entregar uma intervenção completa, tudo isso em 30 linhas. Por isso, entender o que cada competência pede é o primeiro passo para não perder ponto à toa”, explica Cris.
O que não fazer: erros que zeram ou custam pontos
A cartilha lista situações que levam à nota zero em toda a redação. Entre elas estão a fuga total ao tema; o uso de outro tipo de texto, como narração ou depoimento pessoal; o texto insuficiente, com até 7 linhas; a folha em branco; a identificação do candidato fora do campo destinado a isso; e a presença de desenhos, ofensas ou trechos deliberadamente desconectados, como recados à banca, orações e letras de música. Também zeram a prova o texto escrito majoritariamente em língua estrangeira e a letra ilegível. Já a cópia dos textos motivadores não anula a redação por si só, mas as linhas copiadas são desconsideradas da contagem, e, se restarem 7 linhas ou menos de texto próprio, a nota também é zero.
Uma proposta de intervenção que desrespeite os direitos humanos não anula a redação inteira, mas zera a Competência 5, o que pode representar até 200 pontos a menos.
Outro alerta importante da cartilha é o chamado “repertório de bolso”, formado por referências decoradas, encaixadas em qualquer tema sem relação real com o problema discutido. O próprio documento cita como exemplo uma abertura com Platão e a “sociedade ideal”, que serviria para quase qualquer proposta e poderia ser retirada do parágrafo sem prejuízo ao sentido.
“Fórmula pronta e texto decorado não levam a nota alta. É justamente o que o corretor reconhece de longe. Repertório bom é aquele que dialoga com o tema daquele ano e que o aluno consegue explicar por que está ali”, destaca Cris Oliveira.
O que fazer na reta final
Para a professora, as próximas semanas devem priorizar prática orientada, e não acúmulo de conteúdo. Entre as estratégias que ela recomenda estão:
Planejar antes de escrever. Definir a tese, os argumentos e as estratégias argumentativas antes de redigir evita o texto circular ou raso. “Texto não brota do nada”, resume Cris.
Escrever e reescrever. Produzir redações com regularidade, dentro do limite de 30 linhas, e reescrever depois da correção é o que mais desenvolve a escrita, muito mais do que ler modelos prontos.
Montar repertório por eixo. Reunir poucas referências sólidas para cada eixo temático e treinar como articulá-las a diferentes problemas, em vez de memorizar citações soltas.
Treinar a proposta de intervenção. Praticar uma proposta completa, com agente, ação, meio ou modo, finalidade e detalhamento, sempre respeitando os direitos humanos.
Revisar com “olhos de águia”. Reservar tempo, na prova e nos treinos, para conferir acentos, conectivos, pontuação e trechos truncados. “Um detalhe pode definir se a redação fica abaixo ou acima dos 900”, afirma Cris.
Ler a cartilha do Inep. O material está disponível no portal do instituto e traz redações do ENEM 2025 com comentários sobre os critérios de avaliação.
Cris Oliveira é professora, escritora e empresária, fundadora da Cris Oliveira – Tudo de Texto – Soluções Educacionais e para Escrita. A professora também desenvolve um método de ensino personalizado voltado ao aprimoramento da comunicação escrita e oral. Atua na preparação de estudantes para vestibulares altamente concorridos, provas discursivas e concursos públicos, além de apoiar profissionais e empresários no desenvolvimento da escrita estratégica. Seu trabalho une técnica, repertório, pensamento crítico e fortalecimento da confiança, com resultados em aprovações para instituições como USP, FGV, Insper e Santa Casa.