Estudo examina o cenário das empresas em recuperação judicial nos ciclos presidenciais

Por Alexandre Farkuh, CEO da TF8 Capital grupo financeiro que atua em três frentes de negócios: Wealth Management, Assessoria de Investimentos e Serviços Financeiros.

Formado em Administração de Empresas, possui 20 anos de experiência no mercado financeiro, com ampla atuação nos mercados de crédito e investimentos, tanto no Brasil quanto no exterior (onshore e offshore).

Antes de fundar a TF8 Capital, construiu sólida trajetória no setor bancário, com passagens por instituições como Banco ABC Brasil, Banco Pine, Banco Safra e Safra National Bank of New York

ESTUDO

Estudo elaborado em nossa companhia, em agosto de 2026, examina o cenário das empresas em recuperação judicial ao longo dos seis últimos ciclos presidenciais. O levantamento compreende o período entre 2002 e 2022 e cruza o comportamento do dólar, da taxa Selic e dos pedidos de recuperação judicial. O resultado chama a atenção justamente pela ausência de um padrão.

Embora o recorte histórico comece em 2002, cabe uma ressalva metodológica: a recuperação judicial, no formato atual, foi instituída em 2005 pela Lei nº 11.101. Por isso, a comparação entre esse indicador e as demais variáveis começa efetivamente em 2006.

O dólar apresentou alta em três desses ciclos, 2002, 2014 e 2018, e caiu nos outros três, 2006, 2010 e 2022. A Selic terminou acima do nível inicial em quatro dos seis períodos: 2002, 2010, 2014 e 2022. Nos anos eleitorais com base integral de comparação dos pedidos de recuperação judicial com o ano anterior, os dados também não apontam uma trajetória que acompanhe de maneira uniforme o comportamento do câmbio e dos juros.

Um dos aspectos mais relevantes do levantamento é justamente o desencontro entre esses indicadores ao longo dos diferentes ciclos eleitorais. Não houve uma combinação recorrente de alta do dólar, elevação da Selic e avanço das recuperações judiciais. Em determinados períodos, câmbio e juros caminharam na mesma direção; em outros, seguiram trajetórias opostas. Em 2010, por exemplo, o dólar recuou enquanto a Selic subiu.

Em 2022, o movimento voltou a ocorrer: a moeda americana caiu 6,5%, ao mesmo tempo em que a taxa básica de juros avançou de 9,25% para 13,75% ao ano. Essa heterogeneidade reforça que o calendário eleitoral, isoladamente, é insuficiente para explicar a saúde financeira das empresas.

Os dados sobre recuperação judicial reforçam essa leitura. Considerando a série da Serasa Experian, nos quatro anos eleitorais em que há comparação integral dos pedidos de recuperação judicial com o ano anterior, 2010, 2014, 2018 e 2022, o número de pedidos caiu. As reduções foram de 29,1% em 2010, 5,3% em 2014, 0,8% em 2018 e 6,5% em 2022.

Em 2018, por exemplo, foram registrados 1.408 pedidos de recuperação judicial, o maior volume entre os anos eleitorais analisados. Ainda assim, o número ficou praticamente estável em relação ao ano anterior, com queda de 0,8%. O dado é relevante porque mostra que um volume absoluto elevado de recuperações judiciais em um ano eleitoral não significa, por si só, que tenha ocorrido uma deterioração provocada pela eleição.

Isso não significa que períodos eleitorais sejam irrelevantes para a economia. O processo eleitoral pode aumentar a incerteza, alterar expectativas e influenciar decisões de investimento. O problema está em transformar esse fator em justificativa isolada para dificuldades financeiras. Na maioria das vezes, elas são resultado de um processo muito mais complexo.

Os números ajudam a mostrar essas diferenças. Em 2002, o dólar avançou 52,3%, passando de R$ 2,32 no fim de 2001 para R$ 3,53 no encerramento daquele ano. A meta da Selic, no mesmo período, passou de 19% para 25% ao ano. Já em 2006, o dólar recuou 8,7%, de R$ 2,3407 para R$ 2,1380, enquanto a Selic caiu de 18% para 13,25% ao ano. Em 2010, o dólar recuou enquanto os juros subiram. Em 2022, o dólar caiu 6,5%, enquanto a Selic passou de 9,25% para 13,75% ao ano.

Apesar de a análise do dólar, da taxa de juros e do cenário econômico que pode deteriorar o faturamento das empresas ser um caminho natural para analistas em períodos eleitorais, é preciso investigar a situação dos empresários também nos períodos anteriores aos pleitos. Mais relevante do que buscar uma correlação eleitoral é entender como uma empresa chega a momentos de maior incerteza.

A recuperação judicial raramente decorre de um único acontecimento. Normalmente, é o estágio mais visível de uma deterioração financeira que começou meses ou até anos antes.

Juros elevados aumentam despesas financeiras. Crédito restrito dificulta refinanciamentos. Queda de receita reduz a capacidade de absorver custos. Perda de margem limita a geração de caixa. Endividamento elevado diminui o espaço para atravessar períodos adversos.

Quando diferentes pressões se acumulam, a capacidade de reação da empresa diminui. Para chegar a uma situação em que os desafios financeiros colocam em risco a sustentabilidade do negócio, normalmente há um processo anterior de perda de receita, compressão de margens e aumento do endividamento.

Existe ainda um componente frequentemente ignorado: o tempo. O choque econômico e o pedido de recuperação judicial não necessariamente acontecem no mesmo momento. Uma mudança no comportamento da taxa de juros, no câmbio ou nas condições de crédito pode demorar meses para atingir integralmente o caixa. Antes de recorrer ao Judiciário, a empresa costuma consumir reservas, renegociar compromissos, vender ativos ou buscar novas fontes de financiamento.

Ao analisar todos esses fatores e olhar para 2026, talvez seja mais importante discutir a saúde financeira das empresas do que tentar fazer ilações sobre o impacto da eleição presidencial no aumento ou na diminuição dos pedidos de recuperação judicial.

A pergunta que deveria ocupar a mesa dos empresários não é: “O que a eleição fará com a minha empresa?”. O questionamento mais racional talvez seja: “O quanto minha empresa está preparada para atravessar um período de maior volatilidade?”.

Responder a essa pergunta exige conhecimento da geração de caixa, do perfil e vencimento das dívidas, do custo do capital, da exposição cambial, das margens e da dependência de financiamento. Quanto menor a liquidez e maior a alavancagem, menor tende a ser a margem de reação diante de mudanças no ambiente econômico.

Outra atitude necessária para os empresários é agir antes que a dificuldade financeira se transforme em crise. Reestruturação não deveria começar quando o caixa termina. Quanto mais cedo os sinais de desequilíbrio forem identificados, maior será o conjunto de alternativas disponíveis.

O histórico das últimas eleições deixa uma mensagem relevante para 2026: não existe uma sentença econômica determinada pelo calendário eleitoral. Eleições podem produzir incerteza, mas empresas não entram em recuperação judicial simplesmente porque o país está escolhendo um presidente.

No fim, o que determina a capacidade de atravessar períodos difíceis continua sendo algo muito menos político e muito mais empresarial: nível de endividamento, geração de caixa, liquidez, margem e capacidade de gestão. É sobre esses indicadores, e não apenas sobre o calendário eleitoral, que empresários deveriam concentrar sua atenção.