Fábio Aquino, especialista em Fisiologia do Exercício e CEO da Fisiotrainers, explica por que genética, sono, alimentação e recuperação podem fazer com que cada corpo responda de uma maneira ao treinamento
Você treina ao lado de uma amiga, faz exercícios parecidos, frequenta a academia com a mesma regularidade e, ainda assim, depois de alguns meses, percebe que o corpo dela mudou muito mais do que o seu. A situação é comum e costuma levantar uma pergunta: afinal, por que o mesmo treino funciona de forma tão diferente para cada pessoa?
Para Fábio Aquino, especialista em Fisiologia do Exercício e CEO da Fisiotrainers, a resposta está longe de ser simples. O treino é apenas uma parte de uma equação que também envolve genética, alimentação, sono, recuperação e a maneira como cada organismo responde ao estímulo.
“Pessoas submetidas a programas semelhantes podem apresentar ganhos diferentes de força e massa muscular. O corpo humano não funciona como uma fórmula matemática. Podemos aplicar estímulos muito semelhantes em duas pessoas e obter respostas completamente diferentes. O treino pode até ser igual no papel, mas o organismo que recebe esse treino nunca é igual”, afirma.
O treinador afirma que a genética tem influência, mas não explica tudo. Ele destaca que existem características individuais que interferem na capacidade de adaptação ao exercício e pesquisas investigam diferenças relacionadas à síntese proteica muscular, células satélites e outros mecanismos envolvidos na hipertrofia.
Ainda assim, Aquino acredita que colocar todos os resultados na conta da genética seria simplificar demais a questão. “A genética pode estabelecer algumas vantagens e limitações, mas não deve virar desculpa. Existem inúmeras variáveis que conseguimos modificar. Treinamento, alimentação, recuperação, sono e consistência estão entre elas”, explica.
É aí que entra um detalhe que nem sempre aparece quando duas pessoas se comparam diante do espelho: o que acontece fora da academia. Uma hora de treino pode ser parecida, mas as outras 23 horas do dia dificilmente são.
“Uma dorme sete ou oito horas. A outra dorme cinco. Uma possui alimentação adequada às suas necessidades. A outra consome pouca proteína ou energia insuficiente. Uma chega recuperada para o próximo treinamento. A outra acumula estresse, noites ruins e fadiga”, diz.
O especialista enfatiza que o exercício é apenas o começo do processo. “O músculo não cresce durante o exercício. O treinamento gera estímulo. Depois, o organismo precisa de nutrientes e recuperação para responder a esse estímulo. Por isso, analisar apenas aquilo que acontece dentro da academia é enxergar somente uma parte do processo”, afirma.
Aquino afirma que até mesmo quando duas pessoas fazem o mesmo exercício, isso não significa que o corpo esteja recebendo exatamente o mesmo estímulo. A técnica, a amplitude do movimento, a velocidade de execução, o esforço e o tempo de descanso entre as séries podem mudar bastante.
“Dois alunos podem fazer três séries de dez repetições no mesmo aparelho. Um termina sem grande dificuldade, enquanto o outro chega perto do próprio limite. Não basta olhar uma ficha e dizer que duas pessoas estão fazendo o mesmo treino. Precisamos observar como cada uma executa aquele treino e, principalmente, como cada organismo responde a ele”, destaca.
O treinador avalia que a vontade de acelerar os resultados também pode levar a outro erro: acreditar que mais treino é sempre melhor. Quem percebe que está evoluindo menos do que outra pessoa muitas vezes aumenta o número de exercícios, séries ou dias de academia.
O volume precisa respeitar a capacidade de recuperação de cada organismo. O erro é acreditar que, se dez séries funcionaram para uma pessoa, vinte obrigatoriamente funcionarão melhor para outra. Em treinamento, mais não significa necessariamente melhor. O que precisamos encontrar é a dose adequada para aquele indivíduo”, explica.
Para ele, essa é uma das diferenças entre simplesmente seguir uma ficha e ter um programa de treinamento acompanhado. Carga, volume, frequência, execução e recuperação precisam ser observados ao longo do processo. Se o corpo não está respondendo como esperado, é preciso entender o que pode ser ajustado.
“Eu não acredito em treino individualizado apenas no primeiro dia. Individualizar é observar a resposta e fazer ajustes durante todo o processo. O melhor programa não é aquele que parece perfeito no papel. É aquele que consegue evoluir junto com a pessoa”, afirma.
Em tempos de redes sociais, a comparação ganhou ainda mais espaço. É fácil encontrar o treino de uma atleta, influenciadora ou celebridade e imaginar que reproduzir aquela rotina será suficiente para conquistar o mesmo corpo. Mas não é assim que funciona.
“O treinamento precisa considerar idade, experiência, objetivos, condição física, histórico de lesões, disponibilidade para recuperação e resposta individual ao estímulo”, ressalta.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja qual treino funcionou para outra pessoa, mas qual treinamento está funcionando para você. “Não existe o melhor treino para todo mundo. Existe o melhor treino para aquela pessoa, naquele momento. Treinar bem é estimular, avaliar a resposta, ajustar e evoluir. É isso que transforma exercício em treinamento”, resume.
“Duas pessoas podem até treinar lado a lado e seguir uma rotina parecida. Mas nenhum organismo responde exatamente da mesma forma — e entender isso pode ser um bom começo para trocar a comparação por resultados mais consistentes”, completa.